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 Contos Gélidos II

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Andrus de Kraken
General Marina
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MensagemAssunto: Contos Gélidos II   Sex Jan 29, 2016 11:58 am

Medo do Escuro

Encosta das montanhas de Yakutsk, Sibéria.

Volker Hollstein estava há dois dias sem dormir. Aquilo não era possível. Não podia ser possível. Mas pelo visto, ele começava a engatinhar para a explicação. Tinha feito todos os testes, mas sabia que todos o tomariam como maluco. Mas ele sabia. Tinha uma resposta ali. E pensar que a achara por acaso...

Sim, por acaso. Depois de tomar seu café, ele optara por caminhar novamente pela área do evento. Tinha adquirido este hábito desde que começara a ficar sem pistas. As estátuas refletiam parcialmente o rosto do velho, que se sentia encarado pelas estátuas macabras. Ele devaneava, com sua mente ainda procurando respostas, propondo teorias uma mais infundada do que a outra. O Dr. Hollstein caminhava olhando à volta, já estava acostumado a fazer aquele caminho, pisando em rochas congeladas, passando com cuidado pelos vestígios de órgaos destruído, tomando cuidado para não escorregar no gelo das pedras ou no sangue coagulado...

Sangue coagulado! A mente do doutor foi sacudida com a violência de um safanão. Por que o sangue à volta estava congelado e em forma de cristais e o do chão estava coagulado? É claro que houvera um corpo que não congelara ao mesmo tempo em que os outros! E era justamente o sangue que estava no centro. A princípio, o Dr. Hollstein pensara que o sangue havia espirrado dos corpos implodidos, mas a mancha de coágulo estava por baixo da camada de gelo e neve, o que indicava que ele tinha pingado ali ANTES do evento.

Arfando, o doutor apressadamente voltou até o laboratório em disparada e recolheu com excessivo cuidado uma amostra do sangue coagulado. E então, a análise lhe confirmou as suspeitas: O sangue era mais antigo que o dos militares e não batia com nenhuma outra amostra que Hollstein tinha recolhido. Era sangue de outra pessoa. Alguém estava faltando naquela cena. E esse alguém tinha as respostas sobre o evento, ele sabia! E a única forma de descobrir isso era falando com eles. Com aquele casal...

Cidade de Yakutsk, Sibéria.

- Leila. Que lindo nome...

Viliska parecia maravilhada agora que a menina acordara. Ela rodeava a cama, como se quisesse ter certeza que a menina estava bem, o que parecia estar deixando Leila apreensiva. Cedok percebeu isto e calmamente foi até a cama, sentando-se nela. Ele colocou sua enorme mão nos ombros de Leila e disse, com um sorriso terno:

- Não precisa ter medo. Só estamos felizes que você está bem. Ficamos preocupados que você não acordava.

Leila olhou em volta com seus olhos curiosos. Era uma casa simples, pelo menos o quarto era modesto. Apenas a cama, cujo colchão parecia ser novo, devido ao cheiro sintético dos tecidos e a qualidade dos cobertores, e alguns móveis, como um criado mudo no qual estava um copo com água e alguns pedaços de bandagem, evidentemente a mesma que estava atada em sua testa. Um armário, este de aparência antiga, emoldurava a parede, e o resto do quarto estava preenchido de coisas antigas. Parecia que antes dela chegar, o quarto funcionava como depósito. Mas tinha sido higienizado, pois Leila não via marcas de poeira no quarto.

Após a análise no quarto, Leila ficou um pouco mais tranqüila. Não havia indícios de treinamento militar, muito embora o quarto pudesse ter sido limpo de evidências. Ela precisava verificar a casa e ter certeza se não estava em território inimigo, se não tinha sido capturada, apesar de manter seu raciocínio sobre o fato de que estaria morta para todos os que poderiam saber sobre o incidente em Praga. Assim sendo, tentou novamente dar impulso para ficar de pé.

Desta vez, conseguiu. Equilibrou-se e começou a caminhar, a princípio vacilante, mas em seguida firmando os pés. A cabeça pesou, ela cambaleou, ameaçou cair e Viliska aflita fez menção de correr para socorrê-la. Leila ergueu a mão espalmada para a mulher detendo-a com um gesto mudo. Cedok apoiou sua mão no ombro de Viliska, tanto para confortá-la, quanto para detê-la. Leila então, sorriu e disse:

- Já estou bem. Eu deveria deixar vocês em paz. Deve ter sido difícil me trazer aqui. Não quero incomodá-los mais.

A verdade é que Leila se sentia pouco a vontade sozinha e desarmada em um lugar desconhecido. Fora treinada para não confiar em ninguém e seus reflexos ainda funcionavam, apesar daquilo ter acabado. Depois do que Leila o vira fazer, ela sabia que ele continuaria. Ele sempre levava suas missões a sério, ao extremo. Não bastava cumprir, Ele tinha que ter êxito máximo. Tirar a melhor nota. Enquanto Leila divagava sobre isto, logo após sua frase, Cedok se adiantou:

- Você não nos incomoda, Leila. E você precisa comer algo antes de ir, de qualquer forma. Você está há duas semanas só a base de água e sopa.

De fato, Viliska alimentava Leila através de um canudo que ela ajeitava com todo o cuidado na garganta da garota. A sorte de Viliska é que Leila não sufocava nem engasgava, e sim engolia toda a porção de alimento. Leila então se concentrou e tentou se lembrar da alimentação, mas quando pensou nisso, percebeu que seu corpo estava fraco ainda. Duas semanas desacordada. Talvez mais, considerando quanto tempo ficara no gelo antes de ser achada. A cabeça pesou novamente com os cálculos e ela levou a mão até a testa, do lado em que estava ferida, cobrindo também parcialmente o olho esquerdo. O ferimento parecia ferver agora. Ela suspirou e então, disfarçando a tontura e a pontada no lugar do tiro, Leila disse:

- Se eu não for incomodar tudo bem...

Eles então desceram para comer e Viliska serviu um verdadeiro banquete para Leila. À mesa havia Borscht quente, uma sopa vermelha cozida com beterraba e tomate, Blini, um tipo de panqueca russa com salmão defumado. Ao lado um pouco de Goluptsi, uma porção de carne moída temperada e arroz enrolado em folhas de couve cozidas. Um punhado de Salada Olivier, um prato popular no inverno. Feita com maionese, batata cozida, ervilha, pepino em conserva, cebola, ovo e cenoura.

A boca de Leila se encheu d'àgua e ela rapidamente se sentou à mesa. Testando o leite fresco que estava servido com a ponta da língua para verificar entorpecentes ou venenos, tocando a comida também com a língua para o mesmo fim, ela logo percebeu que era uma refeição farta e desprovida de truques que estava à sua frente. Uma que não via desde a infância. E se pôs a comer, com avidez de faminta, com urgência de desesperada, quase engasgando pela fome que sentia, tal qual um recém nascido que implora por peito.

A última refeição farta que ela se lembrava de ter feito fora em Selfoss, há tantos anos atrás. Depois desta, somente comida militar e refeições frugais, para manter o corpo sempre ágil e atlético. Mas uma refeição ficara em sua cabeça e voltara à memória naquele momento...

Um dia, no acampamento, ela estava fazendo suas refeições. Os treinos tinham sido árduos e muitos tinham ficado pelo caminho. Somente as crianças fortes tinham resistido, ou aquelas que tinham algum talento para algo útil. Leila foi uma destas. O refeitório estava vazio, mas era apenas por que além dela, apenas sete crianças haviam sobrado. Ela comia de cabeça baixa, tentando juntar forças para o próximo treino quando um grupo de três garotos a cercou. Então, um dos garotos começou a falar:

- Ei, você. O que acha de nos exercitarmos um pouco? Precisamos ficar sempre em forma e um treino de combate seria ótimo para isso.

Leila apenas volveu os olhos para eles e balançou a cabeça negativamente. Foi quando aquele garoto disse:

- O Benfeitor vai levar alguém com ele na sua próxima viagem e com certeza vai ser o mais capacitado. Então, é melhor que nós saibamos quem vai, não é?

Dizendo isso, ele sacou sua arma e atirou na cabeça do rapaz que estava ao seu lado sem alterar sua expressão.

Leila ficou aterrorizada. Eles iam matá-la ali mesmo. Rapidamente correu os olhos em volta e notou um garoto erguendo uma faca e outros três se precipitando pela esquina do refeitório. Tentou se abaixar para pegar a arma, até que um projétil o atingiu o olho do rapaz que tinha atirado que agonizou e morreu instantaneamente. Sem dar tempo de reação, o garoto que tinha atirado a faca correu em direção a eles, chutando a cadeira em direção ao que sobrara deles em pé e golpeou-o no estômago com o garfo, puxando o instrumento para cima. Leila sentiu o sangue sendo espirrado nela enquanto o garoto estrebuchava e morria. Um dos garotos que estava na esquina se precipitara, mas aquele que tinha arremessado o projétil tinha percebido. Porém, ele não foi rápido o suficiente. Aquele que saíra da tocaia tinha se munido da cadeira e golpeou o garoto dos talheres nas costas, derrubando-o no chão. E então, largou a cadeira e apanhou a faca do olho do garoto que iniciara o plano, partindo para cima do garoto no chão.

E Leila alcançou sua arma. E atirou. Matou os outros dois na tocaia e deu dois tiros nos garotos no chão, mas apenas o que estava por cima foi atingido. Este caiu morto e o outro empurrou seu corpo, olhando para Leila, mas esta já apontava a arma para sua cabeça. Juntou suas forças e proferiu sua ameaça:

- Eu não quero me exercitar! E se continuar insistindo, eu vou matar você!

O garoto se ergueu lentamente e disse:

- Abaixe a arma. Eu não tenho intenção de matar você. Isto não é necessário.

As palavras soavam convincentes. Assim, Leila abaixou a arma. E suspirou ainda um pouco assustada. Com um pouco de esforço, conseguiu falar:

- Você é...

O garoto se apresentou, começou a dizer seu nome e...


- ...Leila? Está tudo bem?

Ela voltou à si do devaneio. Cedok e Viliska olhavam para ela inquisitivos. Parecia ter se distraído com as memórias e sorriu, dando a entender que não era nada. Eles ficaram felizes ao ver Leila com tanto apetite. Tinham se sentado para comer também, mas deixaram que ela comesse à vontade. Leila então terminou a refeição e se sentiu um pouco melhor. Olhou para o casal mais atentamente, analisando seus perfis. Pareciam realmente ser apenas um casal preocupado. Mas ela queria saber de onde vinha o porte atlético, porém ser incisiva poderia assustá-los. Assim sendo, ao terminar de comer, decidiu explorar a casa e os arredores. Ela se ergueu sob o olhar atento do casal e começou a vagar pela casa. Olhava a mobília com fingido interesse, examinava janelas e portas, testava o assoalho com os pés. Olhou algumas fotos penduradas às paredes e um calendário, para se orientar na data. Pela data do calendário, Leila tinha dormido muito mais tempo do que ela, Cedok e Viliska tinham pensado. Tentou se lembrar de algum indício de passagem de tempo e volveu os olhos pela sala, atrás destes indícios.

E notou um velho piano ao canto da sala.

Sua análise terminou ali. Leila caminhou até o piano, sentou-se diante dele e ajustou seus pés nos pedais. Ergueu a proteção de madeira das teclas e examinou fixamente cada uma delas. E então, seus dedos desceram sobre elas e começaram a tocar.

Seus pensamentos novamente voaram. Ela estava em Praga, em uma festa de gala quando as luzes se reduziram a uma penumbra agradável e uma música orquestrada começou a tocar. Os casais começaram a se juntar em uma pista de dança, que havia sido armada no meio do saguão do castelo. Leila olhou para seu parceiro, que parecia disposto a seguir o alvo daquela missão. Mas ela sabia que ser precipitado naquele momento os condenaria. Então, ela chamou seu parceiro e disse ao seu ouvido em um sussurro:

- Temos que nos misturar. Venha, vamos dançar.

Ele não resistiu. A acompanhou quando chegaram a pista, o rapaz tomou sua mão, passando seu braço pela cintura dela. Leila apoiou sua mão no ombro dele, mantendo seu corpo próximo. Ela sentiu a respiração do parceiro próxima. Os dois começaram a dançar lentamente, com um compasso perfeito, métrico e profissional como ambos tinham treinado para ser. Mas a cada volta que davam, ela sentia a pressão dos braços, a respiração dele próximo de seu pescoço. Ela suspirou de forma quente, sentindo o toque e o bailado dele, praticamente derretendo em seu abraço.  Ela percebeu que ele a olhava nos olhos dela e devolveu o olhar, encantada com a dança. Ela notava o movimento firme do corpo dele e se aninhou mais próxima. Ela confiava nele. Confiava nele desde o dia em que tinham executado as outras crianças assassinas. Desde o dia em que tinham sido escolhidos pelo benfeitor. E adorava seu colo, seu abraço e sua proximidade. Foi então que delicadamente, ele a libertou de seu contato na cintura e a fez rodopiar pelo salão, mantendo-a sustentada por sua mão direita. Leila estava feliz, sendo conduzida e rodopiava, passando por outros casais, enquanto ele mesmo andava com os passos lentos e coreografados. Então seu aliado, seu parceiro, o seu homem a puxou novamente contra ele, e ela obedientemente se juntou a ele. A mão dela encostou-se ao ombro dele novamente, mas desta vez seus rostos estavam próximos. Ela suspirou e sussurrou em voz baixa o nome dele.

O nome dele...


Cedok e Viliska olhavam a moça tocando. Era impressionante como as notas da Sonata ao Luar, de Ludwig van Beethoven saía dos dedos da moça e ela sequer olhava para as teclas ou consultava uma partitura. Viliska começou a se aproximar e Leila suspirou. E golpeou as teclas do piano com as mãos fechadas, mas com pouca força. Seu treinamento era realmente impressionante. Os Undertakers eram treinados para proteger as informações mais importantes de uma missão simplesmente por força de vontade. E Leila só tinha percebido naquele momento que sua mente, recém recuperada de um trauma, protegera a informação que ela julgava mais importante. O nome de seu parceiro.

Viliska finalmente chegou perto. E notou que grossas lágrimas escorriam pelo rosto da menina. Assustada, ela abraçou a menina, aflita e perguntou, tensa:

- Leila, o que houve?

Mas ela não podia dizer. Mesmo por que não lembrava. Ela esquecera o nome dele. Ela não se lembrava do rosto dele, estava apaixonada por um homem que não conhecia mais. Ela suspirou de forma aflita e triste e continuou chorando, sendo consolada por Viliska, que nada entendia.

O casal e a menina foram interrompidos por batidas na porta. Do outro lado, estava o Doutor Volker Hollstein.

(Segunda parte da lateral ou Segunda lateral aqui. Espero que estejam gostando)
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