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 Contos Gélidos

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Andrus de Kraken
General Marina
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MensagemAssunto: Contos Gélidos   Qui Jan 21, 2016 5:09 pm

Contos Gélidos – Parte Um

Despertar do Anoitecer

Yakutsk, Sibéria.

Cedok e Viliska eram um casal que fazia parte de um grupo de exploradores que desbravavam aquelas encostas. Eram pessoas interessadas em descobrir maravilhas naturais, partes não tocadas da natureza.  Freqüentemente, ganhavam dinheiro e comida em troca de levar as pessoas por trilhas com cavernas raras e florestas preservadas a muitos milhares de anos. Aquela era a vida do casal e graças a isso, tinham conseguido viver bem por muito tempo, em relativa calma.

Mas nos últimos tempos, eles estavam preocupados com um fenômeno que ninguém tinha conseguido explicar.

Aquele dia tinha começado comum, como todos os dias de exploração. Cedok ia na frente da escalada, pregando dormentes com uma picareta e segurando uma corda, que abria caminho para Viliska, que vinha fixando os dormentes com um martelo, para que pudessem conduzir a si mesmos na volta e até mesmo turistas. Cedok arfava e então, voltando seu rosto barbado para a esposa, ele afastou os óculos de neve e disse, por entre flocos de neve que se afixavam ao pêlo facial:

- Estamos quase chegando. Essa é a única área a qual não exploramos.

Viliska, mulher forte de cabelos curtos e louros, presos e assentados em sua touca azul celeste, apenas assentiu com a cabeça, arfante. A picareta desceu uma última vez e o casal subiu exausto no platô entre as montanhas siberianas.

E teve uma visão aterradora.

Ao fundo, havia um casebre destruído, com uma das paredes tombada e já quase coberto pela nevasca. Uma das paredes parecia ter sido esmigalhada por uma bola de demolição, enquanto o resto se mantinha em pé precariamente. Mas isto não era o mais assustador.

Mais a frente do casebre, havia pelo menos duas dezenas de cadáveres de soldados congelados posicionados em semicírculo, em posturas estáticas, como verdadeiras estátuas de cristal. Os mais distantes do centro do arco tinham a pele em tom azul gelo e estavam com expressões de esgar, torcidas eternamente em pânico e desespero. Alguns pareciam tentar uma fuga que jamais se concretizaria, em uma postura de músculos retesados. Mas estes pareciam ser os que tinham sofrido a morte mais branda.

Aqueles que estavam mais próximos do centro tinham sido estraçalhados. Pedaços de seus membros jaziam em toda parte, salpicados de sangue congelado em diversas partes. Órgãos internos se espalhavam por aquela cena, cobertos de gelo e sangue congelado.

E no meio daquele santuário, daquela dança estática, daquele teatro gélido, estava o corpo de uma garota ferida e que não congelara.

E que ainda respirava.

Cedok e Viliska e entreolharam. O homem correu a descer para chamar as autoridades locais. E a mulher correu até a menina, visando aquecê-la e reanimá-la.

Ela era bonita. Apesar de a pele estar azulada devido ao frio, ela tinha um tom róseo em suas faces. Seus cabelos eram negro azeviche, longos até a sua cintura. Estava de olhos fechados, então Viliska não pode comprovar sua cor. Ela estava com diversos ferimentos coagulados, mas de aparência infeccionada e um corte na cabeça, com uma grande bolha de sangue.

Deveria ter dezesseis anos, talvez menos, talvez mais. Parecia a filha que ela e Cedok nunca tinha se preocupado em ter. Perdida em pensamentos, Viliska não viu Cedok voltando. Só o notou quando ele se ajoelhou ao lado dela. Ambos olharam juntos para a menina e fizeram uma assertiva muda.

Não foi fácil transportar uma adolescente inconsciente para a casa que o casal dividia, mas ambos terminaram a tarefa e passaram a se revezar para cuidar da menina. Isto já fazia uma semana. E a mesma não acordara.

Cedok e Viliska continuavam se alternando em cuidar dela e acompanhar as pesquisas e expedições que ocorriam no local. Este local tinha se tornado a sensação de especialistas do mundo todo, que analisavam o fenômeno com crescente interesse.

Os indivíduos mais distantes do círculo tinham sido colhidos por uma névoa na forma vapor condensada extremamente denso. Cristais de gelo pontiagudos e microscópicos foram inalados junto com o vapor, cortando milhares de vezes as mucosas da boca e as fossas nasais das vítimas. Contudo, isto deveria ter sido apenas a sensação mais "confortável" da mortalha de gelo.

O gás extremamente condensado congelara toda a circulação sanguínea do rosto e garganta dos indivíduos. Boa parte dos tecidos morrera instantaneamente congelando junto, assim como as cavidades que adentrava naturalmente, como a fossa nasal. Sem a proteção da pele, os alvos congelavam de dentro para fora. A pele de seus rostos adquirira um tom azul-gelo devido ao resfriamento praticamente instantâneo. Num movimento involuntário que deve ter acontecido mediante o susto por causa da sensação gélida que eram obrigados a vivenciar, os militares respiraram o gás mortal. Suas laringes, glotes, faringes e pulmões foram congelados no mesmo momento. Por conseqüência sua circulação inteira começara a congelar, causando uma parada cardíaca e os deixando estáticos. O mesmo evento parecia ter ocorrido com as peles dos mesmos, o que dava um aspecto de estátuas de cristal, pois estavam congelados por dentro e por fora, rígidos.

Porém, estes foram os soldados que tiveram "sorte" naquele evento. Os que estavam mais próximos do centro tinham sido congelados da mesma forma, mas antes que tivessem terminado o processo, algo abaixara terrivelmente a temperatura próxima do centro, fazendo com que seus corpos implodissem, tamanha era a fricção molecular do gelo, de camada sobre camada. O mesmo começara a trincar, implodindo lentamente. Sangue podia ser isto espalhado pelas ranhuras do gelo, totalmente congelado. Este evento implodira pernas dos alvos, impedindo-os de se mexer e posteriormente, implodido seus tórax com violência. A casa, a muitos metros do evento gélido, tinha sido colhida pela força da mudança dos milibares de pressão e de temperatura, tendo sofrido as intempéries e ficando praticamente destruída. Os cientistas tinham tencionado utilizá-la como base temporária, mas o risco desabamento era grande demais.

Mas o que tinha desencadeado aquilo? Era a pergunta que o Doutor Volker Hollstein, o líder da expedição se fazia. Mesmo aquela sendo a região mais fria do mundo, aquilo só seria possível mediante a presença do Zero Absoluto. Algo que tivesse criado o Zero Absoluto em ambiente livre e espontaneamente o detendo, fazendo com que sua massa térmica não fosse detectada e o evento se desvanecesse no ar.

Aquilo era cientificamente impossível. E parecia que os únicos que sabiam sobre este evento estavam ali, transformados em estátuas eternas. E ainda havia a questão de que eles eram militares. E de onde eles vinham, de que raízes pertenciam de qual milícia faziam parte, eram outras dúvidas que ficariam sem respostas para sempre. Mesmo que eles estivessem em animação suspensa, o gelo ali presente poderia ser levado ao Saara que dificilmente se derreteria. Naquele ambiente, eles estavam perfeitamente preservados.

O Dr. coçou os olhos, por baixo de seus pesados óculos com armação feita de casco de tartaruga. Ele suspirou e ergueu a cabeça das parcas amostras que tinha conseguido recolher dos cadáveres e apanhou seu casaco de peles, para sair um pouco do ambiente de trabalho. Encheu sua caneca de café e saiu da barraca, olhando com um olhar perdido ao horizonte.

Hollstein era um homem velho. Seus cabelos, já bem ralos e parcos na cabeça, estavam totalmente brancos ou cinzentos. Longas suíças e bigodes abundantes ocupavam quase todo seu rosto, e escondiam o pescoço enrugado e com peles soltas devido à idade avançada. Ele tomou um gole de seu café e suspirou. Ele só queria uma explicação. Ele não queria ir embora desta terra sem receber uma explicação para este evento. Qualquer que fosse...


Enquanto isto, Cedok e Viliska queriam explicações para outra coisa. Como aquela garota estava viva no meio daquela visão do inferno. Agora aquecida, a menina tinha deixado o tom de pele azulado para trás e seus ferimentos tinham se curado rapidamente, excetuando o da cabeça que continuava feio, fazendo com que Viliska tivesse colocado uma bandagem ali. Ela parecia dormir um sono profundo, com uma tranqüilidade incrível. Ela parecia estar tendo um lindo sonho...

Viliska acariciou as costas da mão da menina, enfaixada por conta de um corte terrível na palma da mão. A mulher ainda não compreendera como a menina tinha se ferido tanto, mas sentia-se apiedada dela. Qual tragédia aquele rosto tranqüilo escondia, adormecido placidamente naquela cama?

- Ela não acordou ainda? - Cedok entrou no quarto, olhando para a mulher sentada em uma poltrona ao lado da cama. Parecia preocupado. Viliska sacudiu a cabeça em uma negativa muda, desanimada. Cedok se sentou ao lado da mulher no braço da poltrona, apoiando uma das pernas na mesma:

- Ela vai se recuperar. Ela estava respirando, Viliska. Ela está medicada. Logo, ela vai ficar bem.

- Nós nem sabemos como ela se chama, Cedok. Nem sabemos quem ela é. - Viliska enterrou o rosto nas mãos, perdida. - Talvez devamos entregá-la para aqueles cientistas. Talvez eles saibam como...

- Não. - Cedok foi firme. - Eles provavelmente vão abrir a menina, para ver como ela ficou viva depois daquilo. Não, Viliska. Ficaremos com ela, até ela acordar.

Viliska concordou e ambos se levantaram, saindo do quarto para tomar uma chá quente e não incomodar o sono da jovem.

Foi naquele momento que algo aconteceu.

Cedok e Viliska não haviam fechado a janela do quarto, deixando-a entreaberta. Uma lufada de vento perturbou as cortinas e uma réstia de luz penetrou pela janela envidraçada. Então, os olhos da garota tremeram e ela os abriu.

Ela sentiu a claridade e levou às mãos até os olhos desacostumados com a luz, cobrindo-os. Suspirou, ela sentiu as dores do corpo e tentou se recordar do que estava fazendo ali. Como chegara até lá?  

Em um susto, lembrou de tudo: O cerco, os ferimentos, a dor, a traição do contato.

Ela se lembrou dele.

Confusa, a moça de cabelos negros passou a mão na testa. Ela tinha um curativo na cabeça, no exato local em que fora atingida pelo tiro do traidor. Olhando para a própria mão, para verificar indícios de sangue no curativo, ela fitou a palma de sua mão e notou uma faixa. E começou a desfazer a faixa, para olhar sua mão nua. Tinha que ter certeza de uma coisa.

Na palma, havia uma cicatriz. Uma cicatriz que formava uma letra A.

"A" de Alone (Sozinho)

"A" de Assassin (Assassino)

"A" de Amuse (Diversão)

"A" de...

Ela suspirou e lembrou com saudades dele.

Onde ele estaria? Mas mais importante e mais urgente.  Onde ela estava? A jovem começou a se mexer e sentou-se na cama, ainda incomodada. A cabeça pesava com o ferimento, a dor ainda apontava aguda. Em um instante fugaz, lembrou das palavras de Lorde Seinn sobre a importância de uma vestimenta sagrada. Elas protegiam os corpos, que ainda eram humanos. E agora ela entendia o porquê.

Com um suspiro corajoso, ela tocou os pés no solo, sentindo a textura fofa do carpete sobre madeira fria.  
E então, começou a forçar suas pernas para ficar de pé.

Cedok e Viliska abriram a porta neste momento e os olhos violetas da menina encontraram os olhos castanhos de Cedok e os olhos azuis de Viliska. Ambos correram até ela, que assustada, se encolheu.

Na verdade, queria sondá-los e não feri-los. Afinal, eles não pareciam treinados. Pelo menos, não em combate. O homem era grande e musculoso, de compleição saudável e quadrada. Seu rosto era coberto por uma espessa barba castanha e ele tinha os olhos brilhantes. A mulher tinha uma compleição atlética e os cabelos louros cortados curtos, na altura do pescoço. Seus olhos eram azuis e a pele bem branca, deixando entrever seus vasos sanguíneos. E foi ela quem se aproximou da cama, com passos cautelosos como alguém ao se aproximar de um ninho de animais silvestres:

- Você está bem?

Sua voz era sonora e límpida. Parecia autoritária normalmente, mas a jovem percebia que estava desarmada, tanto física quanto psicologicamente. Suas atenções se voltaram para o homem então.  Ele estava atrás da mulher e olhava para a menina na cama, ou seja, para ela com um ar maravilhado, como se presenciasse um milagre.

A pergunta da mulher flutuou no ar e ficou vagando. Então, a jovem de cabelos negros decidiu respondê-la de forma cordial, mas ainda na defensiva.

- Estou... Só com um pouco de tontura. Onde eu estou?

Desta vez, o homem se adiantou e decidiu responder:

- Você está segura. Eu sou Cedok e esta é Viliska, minha esposa. Você está em nossa casa, em Yakutsk. Nós a achamos entre... - Aí, ele se interrompeu, mas ele não precisava completar. Os três sabiam do que ele falava. Então, ele prosseguiu, depois da pausa:

- Como você se chama?

Ela suspirou, lembrando do evento. Mesmo quando estava desmaiando, ela se lembrava da declaração dele. E depois da sua fúria gélida. E então, ela desmaiara.  Ela estava morta. Para ele, para o traidor, para o benfeitor, para todos. Então, que mal haveria?

- Eu sou Leila.

(E assim termina a primeira parte dos Contos Gélidos. Se vocês quiserem, eu continuo escrevendo. São quatro partes ao todo. Me falem se gostaram e falous!)
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